Obstrução é sinal de que alguma coisa não vai bem. Algo não está funcionando, já não flui como antes. Na perspectiva psíquica, é quando o sujeito se depara com uma pedra no meio do caminho. Como afirma Carlos Drummond de Andrade: “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. As expressões “tinha uma pedra” e “no meio do caminho” se repetem várias vezes nessa poesia. Sinalizam que não é uma pedra qualquer. Ela está no meio do caminho como obstrução, impedimento, obstáculo. Ao tentar caminhar, o sujeito tropeça. Sente um incômodo que gera desprazer e dor. Busca a análise porque já não aguenta mais tropeçar na mesma pedra e dar as mesmas respostas. É o tropeço em seu sintoma. Acha que houve uma ‘falha’ na maneira como vinha organizando a sua vida.
Até então, conseguia ‘dar conta’ das pedras que encontrava pelo caminho, mesmo que fosse aos trancos e barrancos. De repente, tropeça, perde o equilíbrio, fica desestabilizado, descompensado. Chega na clínica com uma queixa: fala sobre a queda, os arranhões, os curativos, mas ainda sem condições de falar sobre a pedra. É o que a psicanálise chama de demanda inicial de uma análise. Para que a análise prossiga, o sujeito deverá se implicar na sua fala, na sua dor. Perceber que nem tudo cabe nas narrativas emboloradas, repetitivas que usava para se dizer. Terá que lidar com o estranho que o habita. Deve manifestar o desejo de mudar. Precisará, em algum momento, responder à questão que Freud colocou há mais de 100 anos para uma de suas pacientes: “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”. De maneira um pouco diferente, Jacques Lacan afirma: “Da nossa posição de sujeitos, somos sempre responsáveis”. Não dá para terceirizar a vida. É intransferível. Não há um ‘kit desobstrução’ que o sujeito possa comprar e ser feliz para sempre. Pode até ser que haja gente prometendo esse kit. Desconfie sempre de quaisquer ofertas de ‘felicidade plena’, de ‘vida desobstruída em 5 passos’. São tentativas ineficazes de tamponar a angústia frente ao vazio e à incompletude que constitui o humano que, ao nascer, não recebe um script pronto, tal como “é só seguir o roteiro”. A vida exige implicação, engajamento, criação, invenção.
No livro “O osso duro de uma análise”, Jacques-Alain Miller pergunta: “Se não houvesse uma pedra no meio do caminho para me deter, para me obrigar a vê-la, para me obrigar a repetir aquilo que vejo com os meus olhos fatigados, será que eu saberia que estou no caminho?”. Somente os mortos têm uma vida desobstruída, sem complicações, sem pedras no meio do caminho, sem desejos, sem inconsciente, sem vazios. Se me permite uma dica, viver a(morte)cido não é uma boa opção.
Clovis Pinto de Castro