Texto de Contardo Calligaris publicado na Folha de S. Paulo – 10 de maio de 2018.

A vida é dura? Você vai morrer? Adão, Eva e você mesmo fizeram por merecer.

Aprendi a história de Adão e Eva cedo, antes de eu saber ler. Ela veio já enriquecida por detalhes que não estão na Bíblia: interpretações de rabinos, de pensadores dos primeiros séculos do cristianismo e, mais ainda, visões de artistas, a começar pelos afrescos de Masaccio em Santa Maria del Carmine (Florença), que descobri aos sete anos.

A história de Adão e Eva nunca me convenceu inteiramente. Na escola de catecismo para a primeira comunhão, eu infernizava o padre: como é que Deus queria que a gente não soubesse a diferença entre o bem e o mal? Que valor teria a escolha de Adão e Eva, se eles não soubessem fazer essa diferença? Eu adorava colocar perguntas sem resposta.

Houve um momento, na primeira adolescência, em que a história de Adão e Eva se tornou, para mim, no melhor dos casos, apenas um jeito imaginativo de lembrar ou de nos fazer crer que Deus teria criado o mundo e os homens.

Mais tarde, cheguei à conclusão de que a evolução da nossa espécie acarreta alguns efeitos colaterais lastimáveis, ou seja, inventamos linguagem, consciência etc., mas, em compensação, também nos colocamos perguntas às quais não sabemos responder.

Pouco tempo atrás, nesta coluna, comentei um texto sobre Adão, Eva e Agostinho, de Stephen Greenblatt, o autor de “A Virada” (Companhia das Letras).

O texto em questão dava um avan-gosto de um novo livro de Greenblatt, que acabava de ser publicado nos EUA e cuja tradução sai agora: “Ascensão e Queda de Adão e Eva” (Companhia das Letras).

Ler Greenblatt é sempre uma extraordinária aventura. Desta vez, ele conta a história de Adão e Eva desde sua aparição (no primeiro livro da Bíblia) até nós.

O casal originário e seu pecado foram necessários para que o criador estivesse maldisposto com sua criatura, ou seja, com a gente. Por que precisava disso?

Os primeiros livros da Bíblia foram compilados quando, cinco séculos antes da nossa era, os judeus puderam voltar do cativeiro em Babilônia.

Levados escravos e com o Templo de Jerusalém devastado, os judeus podiam pensar que Marduk, divindade de Babilônia, fosse mais forte do que o Deus deles. Para entender seus infortúnios sem supor uma fraqueza de Deus, o povo eleito precisava acreditar que a culpa do desastre fosse dele.

Adão e Eva oferecem a primeira grande explicação do mal que acomete os homens: o pecado de Adão e Eva introduziu a morte e a dureza da vida.

Mais tarde, Agostinho decidiu que o pecado de Adão e Eva tinha tudo a ver com a única coisa com a qual ele, Agostinho, importava-se, ou seja, com desejos carnais incontroláveis. Ele inculcou no cristianismo o ódio dos prazeres da carne, como se o sexo fosse o pecado do casal originário.

Um corolário dessa retomada por Agostinho da história de Adão e Eva foi o nascimento (ou a confirmação) da misoginia como caraterística da cultura ocidental: o pecado é feminino.

Greenblatt cita Pedro Damião (santo?), beneditino do século 11, devoto da Virgem Maria, sobre as mulheres, responsáveis por nossa ruina: “Ó, vós, cadelas, porcas, corujas uivantes, corujas noturnas, lobas, sanguessugas (…) Vinde, ouvi, meretrizes, prostitutas, com vossos beijos lascivos, vossas pocilgas para porcos gordos…” (pág. 123).

Posso imaginar Pedro Damião cruzando as pernas e apertando forte, enquanto escreve. Seria engraçado; só que, pouco depois, começa o extermínio das mulheres, de 60 a 100 mil, torturadas, enforcadas, afogadas, queimadas vivas, Europa afora, até o século 18. Eva, amiga da serpente, é a primeira “bruxa”.

Enquanto os misóginos queimavam bruxas, surgiam também movimentos inspirados pela vida de Adão e Eva antes da queda. Como era a vida deles no Paraíso Terrestre, antes que Deus se metesse com sua proibição bizarra?

Certamente, no Éden, não havia hierarquia, não havia diferenças de classe, não havia nobres e pobres –e não faltava nada. Dá para entender que essas perspectivas fossem politicamente incômodas.

Enfim, como era mesmo a vida no Éden? Talvez não fosse muito diferente da dos bonobos, aqueles chimpanzés ao sul do rio Congo, os primatas mais parecidos conosco, que, como a gente, gostam de transar mesmo quando as fêmeas não estão no período fértil.

Afinal, eles vivem sem o conhecimento do bem e do mal, sem saber que vão morrer e sem vergonha: era isso o Éden? E, se era, será que perdemos grande coisa?

Contardo Calligaris: italiano, é psicanalista. Deu aula de estudos culturais em NY. Reflete sobre cultura e modernidade.