“As pedras não nascem, nem crescem,
nem envelhecem, nem se reproduzem.
São sempre as mesmas. Mortas!”
(Rubem Alves)

Comigo ocorre com frequência: ouvir e cantar algumas canções, por diversas vezes, até que, num determinado momento, percebo algo mais profundo escondido por trás das palavras. Foi o que aconteceu com a canção “Flores”, da banda Titãs, composição de Branco Melo e Arnaldo Antunes. Já havia cantado, ou melhor, cantarolado inúmeras vezes quando, surpreendentemente, me dei conta da intensidade e complexidade da letra. Mostra a tensão vida-morte no contexto de uma sociedade caracterizada pelo individualismo levado ao extremo e por relações cada dia mais superficiais, em que se perde a paixão ou o sentido originário diante da vida. A letra apresenta uma morte simbólica. Muitos a interpretaram como sendo a narração de um suicídio. E, nesse caso, é o próprio morto quem ‘narra’ o que está ‘vendo’ e ‘sentindo’ a partir de sua ‘visão’ e posição: de dentro do esquife. Não é uma interpretação descabida quando lemos os seguintes trechos: “Os punhos e os pulsos cortados e o resto do meu corpo inteiro; há flores cobrindo o telhado e embaixo do meu travesseiro; há flores por todos os lados, há flores em tudo que eu vejo (…) as flores têm cheiro de morte”.

Vejo nela o retrato do triunfo do artificialismo como projeto de vida e o peso de se viver na sociedade contemporânea: “Olhei até ficar cansado”. Num mundo de relações artificiais, as pessoas não suportam o que tem vida: “as flores do canteiro”. Assim, são marcadas pelo inautêntico: “as flores de plástico”. Vivemos numa sociedade em que a cópia é mais importante do que o original. O ‘parecer ser’ ocupa o lugar do ‘ser’. Assim como o ‘ter’ é mais valorizado do que o ‘ser’. É o mundo das aparências. Sobre isso, lembro-me de uma breve ilustração que Jair Ferreira dos Santos apresenta no livro O que é Pós-modernidade. É um diálogo entre duas amigas: “que criança linda” – disse a amiga à mãe da garota – “isto é porque você não viu a fotografia dela a cores”. Trata-se aqui de um simulacro, ou seja, a imagem vale mais do que o real. Ela capta o instante ‘perfeito’ de um mundo ‘imperfeito’. É como se pudéssemos suspender a vida – com todos os seus dramas – e usufruir apenas dos momentos mágicos e artificiais.

A canção termina com a seguinte frase: “as flores de plástico não morrem”. É necessário explicitar que as flores de plástico não morrem, mas também não vivem, não exalam perfumes, não envelhecem e não precisam de cuidados. Elas ficam circunscritas à dimensão estética dos simulacros. Em alguns casos, podem até ser bonitas e terem a aparência das flores naturais, mas todas já nascem mortas! Somos assediados o tempo todo pelas formas artificiais de viver a vida numa sociedade que hiper valoriza as aparências e as relações descartáveis. As flores de plástico e a fotografia a cores são tentativas de eternizar aquilo que é efêmero e de driblar o que é próprio da natureza humana: a mortalidade. Nascemos, crescemos e morremos. São os ciclos naturais da vida. Devemos ficar atentos para não reduzirmos a nossa existência ao mundo dos simulacros. Somos flores originais e repletas de vida, mesmo que por tempo limitado. A atriz Fernanda Montenegro, certa vez quando indagada por um repórter: “você já fez alguma plástica?”, disse: “não, pois estas rugas me custaram muito”. Simbolicamente, cada ruga traz à sua memória cenas de uma vida real.

Como afirma Fernando Pessoa: “Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”. Por isso, carpe diem!

Dr. Clovis Pinto de Castro, diretor da clínica Caminhos da Psicanálise.