Sophia tem 76 anos. Daniel tem 78. Isaac tem 75. Isa tem 70. Ana tem 75. Valde tem 77. Todos eram jovens universitários ou estudantes do ensino médio quando houve o golpe militar. Ainda que tivessem seus posicionamentos políticos, nenhum deles participou de grupos de esquerda, de movimento estudantil, muito menos da guerrilha.

O que eles tinham em comum? Eram amigos da Ana Rosa Kucinski. Alguns amigos da adolescência, do tempo dos encontros juvenis sionistas. Outros a conheceram na faculdade de Química. Conviveram com a Ana Rosa, foram a festas, viajaram juntos, paqueraram, trocaram discos, livros, dicas de filmes. Pouco ou nada sabiam que a Ana Rosa levava uma vida clandestina, de envolvimento com grupos de resistência e de luta por liberdade.

Até que um dia Ana Rosa sumiu. Sophia foi a última amiga a vê-la. Haviam combinado de se encontrar novamente em poucas horas, mas Ana Rosa nunca apareceu. Os amigos e os familiares não sabem até hoje o que realmente aconteceu depois que ela foi sequestrada por militares, em plena luz do dia, na Praça da República, no Centro de São Paulo no dia 22 de abril de 1974.

O desaparecimento tem uma peculiaridade única: ele mantém o luto permanente. Não há despedida. Não há corpo para velar. Não há túmulo para chorar.

Esses seis amigos da Ana Rosa não se envolveram com a resistência, não foram presos, nem torturados. Ainda assim sofrem continuamente por causa da violência de Estado perpetrada durante os anos da ditadura civil-militar.

Nas entrevistas que fiz com eles para escrever a biografia da Ana Rosa todos choraram. Um dos amigos nem conseguiu me dar entrevista. Me disse que a dor era muito grande e que se sentia incapaz de falar sobre o assunto. Ouvi de todos que a sensação é de uma ferida aberta, que de tempos em tempos, ainda sangra e dói.

Essas pessoas não entram nos números que contabilizam as violações de direitos daquele período. Elas não são reconhecidas como vítimas, assim como são os familiares de presos, mortos e desaparecidos. O Estado não oferece nenhuma reparação. São vítimas invisíveis de um regime que espalhou terror e morte.

Nunca me esqueço de uma entrevista que fiz com o psicanalista Moisés Rodrigues, do Sedes Sapientiae, para o documentário Coratio. Vou transcrever aqui alguns trechos:

”Mas não é só a pessoa que sofreu a tortura que está sendo atingida naquele momento. Tá sendo atingida também as pessoas mais próximas, seus familiares, o companheiro, a companheira, os irmãos, os filhos, os amigos. Existe uma rede de pessoas que é atingida diretamente pelo horror. Porque os efeitos da tortura se fazem diretamente sobre um corpo. Mas a sociedade como um todo, como uma irradiação, que é atingida.

Quando nós pensamos nos efeitos da tortura, precisamos pensar nesses efeitos na pessoa, nas gerações, nas redes próximas, e também na sociedade como um todo também”.

Nós que estudamos esse período da história do Brasil temos nos debruçado nos documentos, nos relatos das vítimas, nos pedidos dos familiares. Isso é importantíssimo. O que precisamos também lembrar é que uma ditadura não afeta apenas quem está no poder autoritário e quem está na resistência. Toda a sociedade sofre. Todos perdemos. E como reparar essa dor latente? Como curar essas feridas? O Moisés também falou sobre um dos caminhos possíveis:

“É importante que as pessoas que sofrem possam falar e contar. Mas é importante que haja quem escute. O testemunho se faz para alguém. Uma das coisas mais chocantes é um relato do Primo Levi que esteve preso nos campos de concentração da segunda guerra mundial. E ele diz que quando ele estava no campo de tortura, uma das coisas que ele pensava continuamente, ele e os outros prisioneiros, eles pensavam em como seria o dia em que eles pudessem voltar para casa e contar para os seus queridos o que tinham passado.

Mas ele relata que quando ele volta para casa e ele começa a falar sobre tudo que passou nos campos, as pessoas não aguentam o horror e vão saindo. E, de repente, ele se vê sozinho. Com a sua história. A grande questão do testemunho é que se crie também uma comunidade que escute. O Brasil é uma comunidade surda, nós estamos a 50 anos do golpe (a entrevista foi em 2014) e ainda não temos responsabilização formal, punição pelos atos que foram executados naquela época. Contra pessoas que legitimamente defendiam uma ordem democrática.
Porque a grande questão da tortura e das violações não é fazer falar o torturado. Mas fazer calar a sociedade. E a nossa sociedade ficou aterrorizada.”

A psicanálise é conhecida como a cura pela fala. Quando falamos, quando temos o privilégio de uma escuta ativa, os males da alma e do corpo são curados. Nesses 55 anos após o golpe militar de 1964 nós precisamos encontrar caminhos para ouvir. Há muitos feridos. Ainda que haja o movimento de revisionismo histórico, de mudança de narrativa sobre o que vivemos durante esses terríveis 21 anos, precisamos resistir. Resistir bravamente. E amorosamente. Precisamos acolher as dores e ouvir aqueles que sobreviveram e precisam falar. Devemos isso a eles. E ao Brasil.

Ana Castro, jornalista, escritora, documentarista.