Texto escrito por Christian Dunker e publicado no Fora – 15 de maio de 2018.

O transfora não é o fora que percebemos, oposto do dentro, o outro lado do muro. O transfora significa que percebemos o mundo como somos e não como ele é.

As doenças mentais não são mais doenças, se é que um dia teriam sido. Hoje elas se chamam “disorders”. A desordem tem duas figuras fundamentais.  Há aquilo que está fora da ordem porque “saiu da ordem” e, portanto, pode ser reconduzido de volta, ou seja, pode ser recuperado, reabilitado, reordenado, administrado ou incluído. Mas há o que está fora da ordem porque é “contra a ordem”, aquilo que ameaça seu princípio de constituição e, portanto, deve ser destruído ou, mais grave ainda, não tendo direito à cidadania, deve se tornar um ente desprovido de existência.

Assim como o “fora da ordem” tem duas classes o “dentro da ordem” tem duas famílias. Uma infeliz, que se consola com a infelicidade ainda maior dos que estão fora da ordem, e outra infeliz porque aspira a liberdade dos que estão fora da ordem. A primeira precisa de ódio e culpa para tornar o fora intranquilo. A segunda precisa de medo e inveja para viver tranquila. Quando há um muro o fora fica mais fora e o dentro fica mais dentro. Ordem e desordem.

Fora é também um prefixo de exceção. Todos dizem sim, “fora um que diz que não”. Mas há outro tipo de “todos”; por exemplo, quando dizemos que “não ficará ninguém de fora”. Mas se dizemos que ninguém ficará de fora, disso nada garante que haverá pelo menos um que fique “dentro”.  Finalmente, se consideramos todos os que ficam fora e todos os que ficam dentro, ainda assim haverá alguns que ficarão não-todo dentro e nem-todofora. São estes que chamamos de “transfora”, que pedem por uma transleitura de nossos lugares. Uma leitura que não seja só da esquerda para a direita e de cima para baixo. Uma leitura que mostre a história das inclusões e exclusões de nossas patologias do social¹.

1. Safatle, V,; Silva, Jr. & Dunker, C.I.L. (2018) Patologias do Social: uma arqueologia do sofrimento psíquico. Belo Horizonte: Autêntica.

“A solidão do meu apartamento”

Há os que sofrem com a desordem e os que sofrem com a ordem. Nesse caso o problema não é o que significa estar fora, mas pertencer demasiadamente à gramática do dentro. Dentro do mundo, dentro de suas leis, dentro de suas gramáticas de reconhecimento e existência. Adequadamente dentro. Conformadamente dentro. Na solidão de dentro do meu apartamento mental restará a asfixia de ser o que sou. Estamos livres do risco de pertencer demasiado a algo e/ou alguém. Desprevenidos quanto ao risco de pertencermos demais a nós mesmos. Mas o que fazer com a intolerância do gozo ignorado de minha própria identidade? Que lugar haverá para o fora que em mim habita?

“Nunca pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”

A maior parte dos imprudentes e dos não completamente tolos imagina que ser alguém na vida é poder escolher onde está o “meu” dentro e onde está o “meu” fora. Obviamente isso estabelece o mapa reverso que fixa onde está o “seu fora” e o “seu dentro”. “Minha” liberdade vai até onde começa a sua. “Minha” educação depende da sua. Trabalhadores sem pausa se obrigam a lutar cotidianamente para manter suas fronteiras vigiadas e não invadidas pelo que vem de fora. Tudo aqui é um problema de contratos, combinados e obediências. O que está “dentro” da lei é bom, mesmo que seja imoral, indecente ou de mau gosto. Tudo o que está fora da lei é ruim, mesmo que seja criativo, inovador ou estiloso. E quando, ao final, todas as posições estiverem dentro de seus lugares e todos os lugares estiverem dentro do mesmo espaço, a segurança se transformará em asfixia, a calma se transformará em apatia e o pertencimento será uma condenação e um sacrifício.

“Perder-se para se encontrar”

Vivemos perguntando onde está a saída, para esquecermos que a entrada ficou para trás. Por que nossa época associa a solução com a “saída”? Porque estar onde se está não basta?  É preciso sair, viajar, ver-se de fora e retornar. Ir mais longe, sempre mais longe. Ainda mais longe para um dia querer voltar. Pode ser tarde demais quando se descobre que o mundo não tem dobra, não tem limite nem ponto natural de retorno. Aqui o corpo é a nossa mensagem em uma garrafa. Os errantes, andarilhos e estrangeiros que nunca estão em casa podem ser ótimos artistas e excelentes figurinistas de suas próprias vidas. Alguns passam a vida a iluminar e a vestir os personagens de outra vida. Vida fora desta, que um dia virá. Onde tudo começa de verdade. Até lá o mundo é palco e ensaio.

“Entrar num buraco e desaparecer”

Outro tipo de evasor é aquele que quer desaparecer dentro de si mesmo. Ele não foge “para” o mundo, mas foge “do” mundo. Ele está sempre em desaparição dentro de si, dissolvendo-se em uma tentativa de sair. Sair de si, sair do outro, sair de todas as indeterminações que acossam sua existência. Uma vida sem espelhos precisaria de um mundo à sua altura. Mas há os olhos de fora e há os olhos de dentro. Mas além do mundo há o palco. E a relação entre o palco e mundo nem sempre foi de exterioridade. O palco é um lugar do mundo. Do palco encenamos nossas órbitas com outros tantos que às vezes pertencem ao mesmo mundo. Ocorre que o palco presume o fora do palco, o furo do palco, o buraco do palco: a plateia, o auditório, a massa, o outro.

“Desorder não é Transtorno”

Os tradutores do nosso novo “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais²”, o código civil e criminal de nossas formas de sofrimento, inaugurado em 2013, traduziram desordem por transtorno. Transtorno tem uma relação com o que o psicanalista francês Jacques Lacan chamava de Garrafa de Klein. Objeto topológico onde o fora se comunica com o dentro. Sendo seres de duas dimensões não conseguimos intuir que o fora envolve mais do que uma oposição simples ao dentro. A cada momento, andando pela Garrafa de Klein, podemos perceber e intuir que existe o outro lado. Ou se está dentro ou se está fora de uma garrafa. Pode-se fazer um furo e se passa de um lado para o outro. Mas furos são perigosos: Disorder, Transtorno, Furo. Andando pela garrafa, pode se andar por dentro ou por fora. Mas imaginemos pegar o gargalo, distende-lo como se ele fosse feito de chiclete e colá-lo no fundo da mesma garrafa. Detalhe: sem atravessar o vidro. Claro, porque com quatro dimensões e não duas, você não precisa atravessar a parede de vidro. Nesse caso o dentro e o fora se comunicam, como aquela criança que está dentro da barriga da mãe. Ela não está dentro, nos seus órgãos e tecidos. Ela só está envolvida pela sua pele, como num abraço. Ela não está dentro, mas fora, em uma espécie de exclusão interna.

2. Associação Psiquiátrica Americana (2013) Manual  Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas.

O transtorno é o furo que volta. O furo que começa a rasgar a superfície da garrafa e a mostrar que ela não é feita senão de dentros e foras alternados, mas que não se acasalam. Ninguém disse que percebemos o mundo como ele é: com quatro ou mais dimensões. O transfora não é o fora que percebemos, o inverso simétrico e oposto do dentro, o outro lado do muro. O transfora significa que percebemos o mundo como somos e não como ele é. Ser e perceber duas dimensões quando o real tem pelo menos quatro é um problema. Ficamos andando por dentro e por fora da Garrafa, sem nem perceber exatamente quando passamos de um para o outro. A cada vez sofremos fora e depois sofremos dentro. Colocamos o outro no nosso fora e colocamos o outro no nosso dentro, mas não queremos saber do mais além.

Voltemos ao transtorno. Primeiro tem o “trans” e depois tem o “torno”. O trans é difícil de definir. Não é como esquerda e direita, dentro e fora.  O trans é o que cruza a linha. O cis é o que fica do mesmo lado da linha. Cisjordânia, do mesmo lado do rio Jordão. Transjordânia, que cruza a linha do rio Jordão. Transtornadoé tanto o que é tornado trans, que foi forçado a cruzar a linha, quanto o que faz voltar, o que nos torna algo ou alguém diante da linha.

Tive um transtorno, meu caminho ficou mais longo, mais cheio de voltas.

Tive um transtorno, saí da rota, encontrei uma pedra no meio do caminho, caí no buraco da vida.

Tive um transtorno, descobri que quando torno a voltar nesse ponto ele e eu passamos por uma transição indiscernível. Pressentimento de que o mundo e o palco não se esgotam no dentro e fora. Transfora.

O ponto não é mais o mesmo, o espaço não é mais o mesmo, eu não sou mais o mesmo. O fora se tornou outro fora.  Linhas e ordens são efeitos de leitura. Assim como há cisleituras, que ficam do mesmo lado, há transleituras que cruzam os lados. A terceira margem do rio é um exemplo de transleitura do rio. Por isso também desde o século XVII dizemos que os loucos estão “fora de si”. Hoje dizemos que alguém está “fora da casinha”.

Em si é bom.

Fora de si não é bom.

Transfora de si nem é bom, nem não bom.

Por outro lado, o que nos faz ser o que somos são nossas viagens para fora. Viagem sim, desde que volte para casa. Desde que à casa torne. Desde que não entorne.  É uma ordem. Cada um e cada qual habita um mundo. Alguns preferem a periferia de si mesmos. Outros precisam estar no centro. Outros tantos gostam de órbitas: elípticas ou circulares. Há ainda alguns cujas vidas giram apoiadas num torno, como uma massa de argila elas esculpem seu próprio vazio.

Transforma.

Christian Dunker é um psicanalista brasileiro ligado à tradição lacaniana com quase três décadas de atuação na área clínica. Atualmente, é professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). É autor dos livros “Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros” (2015) e “Reinvenção da Intimidade” (2017), e foi vencedor do prêmio Jabuti (Psicologia e Psicanálise) em 2012.