Sílvia Marques

 

É muito comum encontrar pessoas capazes de viver um bom romance, regado a pequenos gestos de carinho e sedução. Pessoas capazes de dar o melhor de si para vivenciar o jantar perfeito, a noite perfeita ou até mesmo o final de semana perfeito.

Quando nos preparamos para um jantar comemorativo ou organizamos um final de semana romântico, entramos num processo performático em que o outro se torna uma espécie de espectador do nosso potencial sedutor.

O dia a dia é outra coisa. Quando falamos sobre rotina, dividir o quarto, a casa, as contas, as  tarefas domésticas, os problemas, estamos adentrando no campo da afetividade.  Já não somos mais personagens realizando uma performance erótica/sedutora. Somos pessoas cheias de lacunas, pontas soltas, contradições.

Por outro lado, somos também mais profundos e complexos do que qualquer personagem.  Enfim, o nosso melhor e o nosso pior vêm à tona, e a relação com o outro se dinamiza e se enriquece, pois sai do âmbito da sedução e da performance.

O que mais vemos nos consultórios são pessoas se queixando de falta de intimidade. Relacionamentos repletos de romance e sexo prazeroso carecem de intimidade afetiva, carecem de comprometimento com a relação e com o outro.

Enquanto o casal se mantém no nível do romance, tudo flui. Mas, quando adentra no nível do amor, se empobrece, se esvazia.

Obviamente, amar não é tarefa simples nem indolor. Como dizia Lacan, amar é dar ao outro o que não se tem e que o outro não pediu.

Pensamos dar nosso carinho, nosso tempo, nosso conhecimento, nossos bens materiais e nossa vitalidade.  Mas, de fato, estamos dando a nossa lacuna, a nossa carência e esperamos que o outro a preencha de alguma forma ─ quando esse preenchimento não acontece, a frustração é inevitável.

Fica aqui uma questão que não quer calar:  aceitar o que o outro oferece, que, muitas vezes, é o seu próprio vazio, a sua própria incapacidade de dar e de receber amor, ou romper o vínculo? Essa é uma resposta singular. Não existe receita. Mas, independente da escolha feita, ela terá que ser sustentada sem culpas  e com muita responsabilidade.

 

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

silviamarques@psicanalistasilviamarques.com

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Atende no Alto da Lapa (Zona Oeste de São Paulo).