Já dizia Freud que o homem tendia a separar amor de desejo. Com uma mulher ele vivia a afetividade. Com outra, o desejo sexual. Uma ele via como santa. A outra, como prostituta. Quem nunca ouviu falar sobre mulheres feitas para casar e outras para transar?

Essa divisão entre amor e desejo que faz o homem eleger dois objetos gera relações muito empobrecidas. A mulher amada sofre com a falta do desejo, e a desejada sofre com a falta do amor. A primeira é transformada praticamente na substituta da mãe: alguém que deve ser respeitado e cuidado, mas impedido de viver as alegrias e emoções do desejo. A segunda vive a sua sexualidade de forma intensa, mas fica apartada das delicadezas do afeto, sendo reduzida praticamente a um brinquedo sexual.

Há algumas décadas, esse tipo de arranjo era muito comum e até mesmo bem aceito socialmente. Embora ainda existam pessoas que vivam essa cisão, cada vez mais surgem homens com uma lógica mais feminina, isto é, homens capazes de encontrar na mesma mulher o amor e o desejo.

Costuma-se ouvir que o amor e o romantismo acabaram. Muito pelo contrário. O amor se tornou mais complexo. As relações se tornaram mais ricas e dinâmicas.  E se parecem mais instáveis, é porque estão em constante mutação. Exigem respostas mais criativas de nós. Não basta mais um papel e uma benção religiosa para garantir que a relação vá durar para o resto da vida, mesmo que internamente não exista mais.

Cada vez mais  formam-se pares que constroem relações pautadas nos mais variados sentimentos, que vão desde a mais sincera amizade até o mais intenso desejo. Ternura, respeito, tesão vão se alternando e às vezes se embolando nas nuances do cotidiano.

A lógica do século XXI é uma lógica feminina. É uma lógica mais criativa, não linear, capaz de conciliar contradições e se abrir mais tranquilamente para todas as formas de afeto.

Quando dizem que o homem está em crise, tal realidade não se configura como algo realmente negativo. Significa que o homem está em transição, em busca de um lugar ao lado dessa nova mulher que se coloca fora de qualquer padrão.

O homem em crise ou com uma lógica mais feminina é o homem que se questiona, que se reinventa, que não aceita confortavelmente os grilhões dos papéis sociais. É o homem capaz de fazer o encontro amoroso.

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

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