“O amor materno não é inerente às mulheres. É adicional. A maternidade é mais difícil de viver do que em geral se crê. A toda-poderosa natureza não dotou a mulher de armas suficientes para enfrentá-la”.
(Elisabeth Badinter)

Quando eu engravidei pela primeira vez, a minha barriga se tornou pública. Pessoas sem intimidade alguma, ou mesmo desconhecidas, passavam a mão nela e disparavam os mais absurdos conselhos ou palpites. É um fenômeno que atinge todas as grávidas. Basta a barriga crescer para que as pessoas comecem a contar histórias sobre parto ou falem: – É menino! É menina! ‘Vixi’, esse daí nasce antes! Mas que barriga enorme! Que barriga pequena! Que barriga baixa!

Além dos conselhos, toda mulher prestes a se tornar mãe é bombardeada por um surto consumista. Tem que comprar berço, enxoval, fralda, brinquedo, móbile, bebê conforto. As listas são infinitas. A cada dia criam uma nova necessidade que você nem imaginava que existia. Quando os filhos nascem, percebemos que mais da metade do que compramos era inútil. Hoje vejo que passei a maior parte da minha primeira gestação preparando coisas: a casa, o quarto, roupinhas. E um tempo pequeno demais me preparando para me tornar mãe.

Porque de todas as pessoas que dão palpites para quem está prestes a se tornar mãe, são raras as que dizem que essa é uma tarefa que requer alma, suor e muita entrega. As propagandas dos dias das mães são sempre emocionantes, mas nunca mostram a realidade do dia a dia de ser mãe. Não estou falando apenas das noites maldormidas, das trocas de fraldas a cada duas horas, da cólica, dos choros incontroláveis do bebê, das birras no supermercado.

Estou falando da mudança que acontece dentro de cada mãe quando a criança nasce. Não nos reconhecemos mais. Não somos mais a mesma pessoa de antes, mas também não sabemos ao certo quem somos. E imersas nessa confusão sentimental e mental precisamos nos entregar totalmente a outro ser. Um bebê que mal conhecemos, mas que depende totalmente de nós. Uma criança que estamos aprendendo a amar e a entender.

Não há tempo para nada mais. Ser mãe é estar disponível. É estar ali, 24 horas por dia, sete dias da semana, totalmente entregue em uma relação que você mais doa do que recebe. Ser mãe é se colocar em novo processo de aprendizagem. Um dia antes de a minha filha nascer, eu fui trabalhar dirigindo, estava no meio de um grande projeto profissional, fiz compras, tomei decisões. Eu era dona do meu tempo. Eu tinha autonomia e sabia fazer tudo o que eu precisava. Naquela madrugada, a bolsa estourou, algumas horas depois, ela nasceu. E aquela mulher que sabia de tudo, que era dona do seu tempo e da sua vida, começava a morrer ali. Não era apenas a minha filha que estava nascendo. Nascia uma mãe, uma nova mulher.

Eu não sabia como trocar fralda. Eu não sabia amamentar. Eu não sabia segurar a minha filha. Eu não sabia como acalmá-la. Eu não sabia como dar banho. Eu não sabia ser mãe. Eu não sabia. E foi com muito choro, questionamentos e medos que eu fui percebendo que a maternidade é o não-saber. É estar vulnerável. Porque quando estamos vulneráveis nos abrimos ao outro. A arrogância sai e dá lugar à humildade. Somos obrigadas a ouvir nosso coração, nossa intuição.

Com o tempo, eu percebi que o que nos faz mãe não é gestar uma criança, parir, montar um enxoval, comprar um berço, ter um lindo chá de bebê. Ser mãe é muito mais do que isso. Ser mãe é estar ali, ao lado daquela criança, mesmo quando ela está aos berros, deitada no chão do supermercado. Estar com os ouvidos e o coração atentos ao que ela precisa. Ter os braços sempre abertos para acolher. O coração sereno para perdoar. E para se perdoar, porque vamos errar muito. Às vezes a vida não nos permite ser mãe ou ter uma mãe. Pouco importa se o filho foi gerado por você, se ele foi adotado, se você é a avó, a tia. O importante é que haja uma pessoa com um amor e olhar maternal para estar ao nosso lado.

E o maior privilégio de ser mãe é poder testemunhar o desenvolvimento de uma pessoa. É ser a guardiã da memória daquele ser. É conhecê-lo como ninguém, mas saber que ele não é propriedade sua. Ele é um ser autônomo. Ele fará suas próprias escolhas. Vai errar, vai acertar, vai te desafiar. “A vida é sua, estrague-a como quiser”, dizia Antônio Abujamra aos filhos. Ser mãe é dar liberdade e segurança para nossos filhos serem quem são. E uma eterna busca de quem somos nós.

Ana Castro é jornalista e sócia-diretora da Qiri Madeira (www.qiri.com.br).