Aprendemos cedo que somos responsáveis por nossas escolhas. O famoso “eu te avisei”, dito por pais, professores, irmãos e amigos, é um índice de que podemos fazer o que bem entendermos, mas consequências existem. E podem ser complicadas. Ou não.

Nem todo gesto ousado ou considerado equivocado pela maioria das pessoas leva a desfechos trágicos. Muitas vezes, precisamos realmente remar contra a maré para viver a nossa singularidade.

Mas o que pretendo salientar neste artigo é a nossa responsabilidade por aquilo que nos aconteceu e que não dependeu de uma escolha nossa.  As escolhas de terceiros interferem em nossa vida, principalmente se eles forem pessoas íntimas a nós. Como reagir diante das consequências dolorosas da escolha de alguém?

Em uma sociedade marcada pela lógica judaico-cristã, em que se fala muito sobre culpa, é automático  nos acomodarmos numa posição de vítima.  O outro decidiu por algo que me fez sofrer uma perda. Nada posso fazer a respeito, pois o agente é o outro. A mim resta apenas lamentar.

Na lógica psicanalítica, em que a palavra culpa cede espaço para a palavra responsabilidade, podemos ir muito além de uma posição passiva. Posso não ter escolhido algo, mas, diante da opção alheia, posso ressignificar a perda de muitas maneiras. Posso inclusive me acomodar na posição de vítima.

Muitas vezes,  um fato que modifica radicalmente a nossa vida não vem da escolha do outro. Mas sim de um mero acaso. Pensemos em um acidente ou até mesmo na morte. O que fazer diante da morte? Tanto da morte propriamente dita como da  ideia da sua existência.

Como definia o filosofo alemão Heidegger, a vida é pautada pela ideia da finitude. Essa ideia em si exige de nós escolhas constantes. Se sou finito, se não sou o senhor do tempo, o que fazer com o tempo que me é dado?  O que fazer com o tempo enquanto passo por ele como um mero acaso?

Os imprevistos nos incomodam, pois nos roubam de nossos planos, de tudo aquilo que pensamos poder controlar.  A fantasia do obsessivo é manter a vida sob controle. Por tal razão, o obsessivo está impelido ao impossível.

Aceitar o acaso, as consequências das escolhas dos outros, reinventando-se a partir delas, é lançar-se para o futuro. É singularizar e dar um sentido, mesmo que arbitrário, à própria existência.

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz. silviamarques@psicanalistasilviamarques.com