A psicanálise é, antes de qualquer coisa, a busca pela própria singularidade. Embora a maioria das pessoas chegue aos consultórios à procura de autoconhecimento (o famoso “quero me conhecer melhor”) ou alívio de um sofrimento insuportável, é função do analista ajudar o analisando a descobrir maneiras criativas para lidar com o seu sintoma e a se responsabilizar por suas escolhas, independente dos valores, dogmas, paradigmas propostos pelo status quo.

A psicanálise não se presta a adequar as pessoas num sistema fechado e padronizado, no qual todos comem, vestem, dizem, leem e almejam as mesmas coisas.  Ela é da ordem da ética e não da moral e dos bons costumes. A psicanálise não acredita numa felicidade padrão, que deve ser consumida por todos em doses iguais.

Embora a sociedade tenha se flexionado bastante nos últimos anos, ainda temos alguns paradigmas que regem as nossas escolhas ‘aparentemente livres’, apenas aparentemente.  Sim, muitas vezes, pensamos desejar aquilo que é eleito como um desejo comum às pessoas do nosso gênero, da nossa faixa etária, do nosso meio social.  Tudo que foge ao desejo da maioria pode ser visto como algo menor.  E ter o desejo não respaldado ou até mesmo criticado no meio social pode ser a fonte de um sofrimento psíquico descomunal.

Como exemplo de pessoas que não se encaixam em tais paradigmas, temos:  os casais homoafetivos e principalmente os que desejam viver a paternidade/maternidade; os casais heterossexuais que não desejam se tornar pais,  as pessoas com uma função bem remunerada que abrem mão de uma parcela de dinheiro por outra de tempo e  as mulheres que não se enquadram nos padrões vigentes de beleza de uma cultura como a brasileira, que prioriza a juventude e a aparência física em detrimento das qualidades intelectuais e afetivas.

Além dos padrões de sucesso e felicidade que regem as nossas escolhas, temos ainda que enfrentar o desafio da constante produtividade. É preciso produzir sempre, mesmo quando se está de férias. As viagens, que poderiam ser oportunidades de relaxamento e ressignificação da própria existência, muitas vezes se tornam verdadeiras gincanas, gerando a necessidade de visitar um número grande de lugares num pequeno intervalo de tempo. Além de visitar, temos que comprovar a nossa presença com incontáveis fotografias. Enfim, o tempo dedicado à fruição se torna cada vez menor e, dessa forma, o experenciar é menos significativo e menos singular.

Como disse a psicanalista Maria Rita Kehl no livro O tempo e o cão, o depressivo tem uma memória de um tempo arcaico em que tudo acontecia de forma mais lenta.  Na atualidade, somos incentivados a desrespeitar o nosso tempo interno em prol de uma necessidade constante de produzir e ser feliz.

A psicanálise põe em dúvida aquilo que dizemos desejar. Desejamos mesmo? Ou pensamos desejar por se tratar de uma imposição social? Se, por um lado, somos frutos da nossa cultura, e a nossa subjetividade é afetada pelos valores sociais, por outro, podemos sim negociar e encontrar um meio-termo entre o coletivo e o privado, tornando a nossa vida algo mais interessante e criativo em nossa opinião, que no final das contas é a que conta mais.

 

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

silviamarques@psicanalistasilviamarques.com