Como diria Jorge Fobes no texto Amor Adolescente, estamos vivendo o novo amor. Um amor que se importa com o presente, desconsiderando o passado e o futuro. A combinação entre Eros e Filia. Para muitos, não existe amor na pós-modernidade. Mas, fazendo uma análise histórica, o amor entrou na equação do casamento apenas no século XIX. Anteriormente, os arranjos eram meramente comerciais.

E agora, no século XXI, fomos mais longe: não precisamos mais do casamento para viver o amor. E mesmo aqueles que optam por uma união legal, respaldada pelo Estado e pela Igreja, têm a opção de encerrar o vínculo quando a felicidade deixa de existir na relação.

Se, há algumas décadas, duas pessoas se mantinham juntas por motivos externos (filhos, pais, valores religiosos, medo do julgamento social etc), atualmente a maioria se sente livre para iniciar e cortar relações a qualquer momento, motivada apenas pelo desejo de ficar junto ou separado.

O novo amor é mais simples? É e não é. Se por um lado estamos nos libertando de amarras sociais e vivenciando o nosso desejo com mais autonomia, se por um lado estamos deixando o campo da moral para adentrar no da ética, por outro, somos muito mais responsáveis por tudo aquilo que escolhemos ou deixamos de escolher.

Manter-se num casamento porque é o certo a se fazer é aprisionante por um lado, mas muito cômodo por outro. Em Terra Um, se eu vivia uma relação infeliz, a responsabilidade não era minha. A sociedade assim o queria, e como uma vítima resignada seguia a minha vida me lamentando baixinho.

Se a porta da relação está aberta e posso sair a qualquer momento,  coloco a cada dia o meu amor à prova. A cada momento que olho para a porta aberta, penso e peso tudo o que tenho dentro de casa e tudo o que posso ter fora.

Quando filhos, finanças, julgamento familiar protagonizam uma relação, o amor deixa de ser questionado, pois ele, de certa forma, já está justificado.

Quando é somente amor e mais nada que liga duas pessoas, a relação se dinamiza, e cada dia é diferente,  é único. Sim, o novo amor prima pela singularidade. Despido de todos os aparatos sociais, é o amor que justifica o próprio amor. É a singularidade da relação que a faz chegar ao dia seguinte. Não, o amor não acabou. Ele simplesmente passou a falar em primeira pessoa.

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

Contato: silviamarques@psicanalistasilviamarques.com