Como escrevi no artigo No final das contas, ser singular é o que importa!, não ter o desejo respaldado socialmente pode gerar um sofrimento psíquico descomunal. Tudo o que foge ao desejo da maioria costuma ser desvalorizado, arremessando a pessoa numa espécie de ostracismo social.

Mulheres que querem se tornar mães e não conseguem têm o sofrimento respaldado no seio familiar e também no seio social. A medicina busca soluções cada vez mais eficazes para que essas mulheres tenham o seu desejo realizado.

Já uma mulher que não quer ser mãe encontra estranhamento. Em alguns casos, julgamento. Casais sem filhos não são considerados uma família, são tachados de pessoas egoístas e que têm uma vida vazia.  Mas o que significa ter uma vida preenchida?

Quem adentrou no universo psicanalítico sabe que temos um vazio constitutivo, uma falta de essência, e todo preenchimento não passa de uma ilusão. Vamos pulando de desejo em desejo. Talvez, seja esta a natureza humana: ser desejante.

Muitas pessoas, para se defenderem de acusações explícitas e implícitas, também se escondem atrás de argumentos-padrão, tais como a descrença no mundo, o medo da violência urbana, a escassez de recursos naturais e as boas oportunidades de trabalho. Muitos indivíduos realmente não desejam a maternidade/paternidade por questões existenciais, por considerarem inaceitável ver um filho sofrer. Mas muitos outros lançam mão de argumentos altruístas para suportem a inevitável pressão social.  Pela crença popular, não se encantar com a ideia de ter um filho é sinal de anormalidade, falta de sensibilidade, egoísmo extremo, incapacidade de amar.

Não comparecer ao aniversário de uma criança parece uma falta muito maior do que não comparecer ao aniversário de alguém na fase adulta. É muito mais simples recusar o convite para um vernissage do que para um chá de bebê.  Prontamente, muitos responderiam que os rituais ligados à maternidade e à paternidade são os mais importantes, porque ter filhos é o desejo maior que existe. Mais do que isso: é o que justifica  estarmos no mundo.

Muitos fazem piadas sobre mulheres sem filhos, dizendo que elas se tornaram as loucas dos gatos. Encaram a relação com os animais como um paliativo, um substituto menor para compensar a não maternidade. Mas muitas pessoas preferem realmente o relacionamento com os animais.  Para muitos, a relação com os animais não é algo menor, é o que realmente promove esse preenchimento ilusório.

Existem também os pais e as mães de grandes causas. Muitas pessoas preferem se dedicar a projetos em vez de se dedicar à criação dos filhos. Obviamente, uma coisa não exclui a outra. Existem aqueles que conseguem, e acima de tudo desejam, conciliar maternidade/paternidade com outras grandes paixões.

Podemos citar aqui também aqueles que elegem como amor principal o amor ofertado ao parceiro afetivo. Muitas pessoas jogam o melhor da sua libido no parceiro e consideram o amor erótico o mais importante. Para muitas mulheres não é a maternidade que define o seu feminino, mas sim a sua relação erótica com o outro.

Podemos ir além: citando a pesquisadora israelense Orna Donath, é equivocado acreditar que uma mulher está sempre entre a carreira e a maternidade. Ou que ela opta por dedicar-se ao trabalho ou aos filhos. A mulher deve ser livre para ter uma carreira comum e ainda assim não querer filhos.  Em resumo: ninguém deve ser obrigado a se dedicar a nada com paixão.

Vale ressaltar aqui também o sofrimento das mulheres que se tornaram mães por pressão social ou do parceiro e daquelas que imaginaram que queriam ser mães e depois se arrependeram ─não por não amarem seu filho ou filhos, mas por perceberem que não se realizam nesse papel. Essas mulheres precisam ser ouvidas.

Diferentemente da medicina, que está centrada nos males que acometem a maioria das pessoas, deixando em segundo plano ou até mesmo no esquecimento aqueles que apresentam um funcionamento diferente, a Psicanálise preza pela exceção. A cura pela palavra não ignora nenhum tipo de desejo e sofrimento, mas, antes de tudo , em seus primórdios, voltou-se para as exceções, para os considerados estranhos, para aqueles que não se integravam ao status quo, para aqueles que tinham algo a dizer, mas não possuíam ninguém para ouvir devido à singularidade de seu desejo.

 

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

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