Os gregos na Antiguidade já sabiam que o medo de cometer um erro ou vivenciar um determinado tipo de situação fazia as pessoas caminharem exatamente na direção do erro ou da situação indesejável. Jocasta e Laio, temendo a realização da profecia, mandaram seu filho para longe. Se Édipo tivesse sido criado por seus pais biológicos, provavelmente não assassinaria Laio nem desposaria Jocasta.

Fazemos quase o mesmo em nossas vidas. Por medo de cair em um tipo de situação, para evitar algum tipo de sofrimento, muitas vezes damos de cara com tudo aquilo que mais tememos. Quantas pessoas não abrem mão do amor porque se desapontaram no passado ou não deixam de confiar nos outros por que um dia foram magoadas profundamente? Quantas pessoas não arquivam projetos profissionais promissores porque um dia fracassaram ou estão cansadas de receber nãos? Existem aqueles que deixam de se expressar livremente porque foram terrivelmente julgados.

Na tentativa de controlar a vida e evitar dores já sentidas, vamos nos fechando dentro de nós mesmos, erguendo muros, impedindo que as pessoas se aproximem e nos desapontem mais uma vez. Muitas vezes, nos apegamos a um amor do passado para impedir que novos amores aconteçam. Muitas pessoas se defendem do novo  agarrando-se a lembranças, idealizando relacionamentos que nem foram tão bons assim.

Enquanto cremos amar alguém do passado, nos poupamos da possibilidade de sermos machucados por um novo amor. Amores congelados são grandes zonas de conforto para quem pretende evitar o encontro com o desconhecido, com o imprevisível.  O mesmo vale para a rotina profissional; e para tudo na vida.  Temos uma tendência à acomodação. Por receio de nos ferir com o novo, nos habituamos a sofrer as dores de sempre, pois, pelo menos, elas já são familiares. Sabemos lidar com elas ou imaginamos saber lidar.

Sim, o encontro com o novo pode nos machucar. Não existem garantias. Por outro lado, muitos encontros são altamente enriquecedores de variadas formas. Alguns enchem a nossa vida de prazer e alegria. Outros nos ensinam lições difíceis, mas nos reconfiguram, nos fazem descobrir novas possibilidades a respeito de nós mesmos. Alguns, talvez, trazem só sofrimento mesmo. Não há muito como controlar.

O que mais vemos na clínica psicanalítica são pessoas imobilizadas por experiências negativas. Pessoas que não conseguiram ressignificar amores interrompidos de forma traumática, tentativas profissionais fracassadas, relações difíceis com os pais, lembranças tristes da infância envolvendo amigos, colegas de escola, primos e irmãos. Nem tudo pode ser ressignificado. Nem todo vínculo afetivo pode ser restabelecido. Nem toda convivência é viável. Por outro lado, é totalmente possível seguirmos em frente, estabelecendo novas regras para vínculos antigos e criando novos, sem cair nas armadilhas dos vínculos passados que nos machucaram, sem repetir padrões nocivos.

É muito comum projetarmos em novos relacionamentos defeitos de relações anteriores. Sugestão: Quer um exemplo? Uma pessoa que foi traída sexualmente repetidas vezes por um ou mais parceiros tende a achar que o atual fará a mesma coisa e, mesmo sem motivo, começa a ter crises de ciúmes.  Vamos a outro exemplo? Uma pessoa que foi deixada repentinamente se sente abandonada diante do menor sinal de frieza do companheiro atual.  Enfim, com medo da traição e/ou do abandono, a pessoa acaba sendo realmente traída e/ou abandonada porque o parceiro não suporta a carga excessiva de desconfiança e de cobrança.

Já dizia Freud que fazemos Psicanálise para conseguirmos trabalhar e amar. Parece pouco, mas é muito.

 

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

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