Diferentemente do que o senso comum imagina, ser amado é uma conquista, uma construção. Não é uma dádiva que cai dos céus para tornar felizes alguns abençoados ou eleitos pelo destino.

Escuto mulheres extremamente atraentes, bem-sucedidas profissionalmente e instruídas queixarem-se de falta de amor. Elas entram nos relacionamentos de cabeça, entregam tudo o que têm, fazem o seu melhor, e quando cometem um pequeno erro, se sentem muito culpadas.  Muitas dessas mulheres se contentam em amar.  Qualquer migalha afetiva que vem do outro está de bom tamanho.

Levei um tempo para entender que o que torna uma mulher ou um homem realmente autoconfiante não é o status social, nem a conta bancária, nem a aparência física ou os feitos na área profissional.  O que torna alguém capaz de acreditar que é digno de receber amor é o próprio amor que a pessoa sente por si mesma. Se não me amo, como posso crer que o outro me amará?

Mas o que significa se amar? Amar a si mesmo vai muito além de desejar coisas boas para a própria vida. Amar a si mesmo implica em se aceitar integralmente. Admitir as qualidades positivas sem falsa modéstia. Admitir as qualidades negativas com assertividade. Tentar melhorar naquilo que não é bom, mas sempre respeitando os próprios limites.

Em uma mesma semana, me deparei com dois casos muito interessantes: de um lado, vi uma mulher por volta dos 30 anos — com o tipo de beleza mais aceito pelos padrões sociais, uma boa formação acadêmica, um nível de delicadeza para se expressar acima da média — relatando seus dramas amorosos e deixando bem claro que apenas recebia migalhas afetivas, e para ela tal realidade parecia normal. Por outro lado, vi uma garota por volta dos 20 — totalmente fora dos padrões vigentes de beleza, com sérias dificuldades financeiras — apresentar um discurso bem diferente: ela se movia nas relações amorosas com segurança, com autoconfiança.

Em resumo: a primeira tinha estabilidade financeira, beleza, alto nível de instrução, mas, por alguma razão, não amava a si mesma. Por que tal realidade acontece? As respostas são muitas. Cada caso é um caso. E, talvez, mais importante do que descobrir a origem de um sentimento dessa natureza, seja ressignificá-lo.

Independente de entender o porquê dessa falta de amor próprio, é importante começar a se olhar com mais carinho, com mais generosidade, beijando as próprias cicatrizes da alma, compreendendo que elas fazem parte da nossa história, acolhendo a nossa fragilidade, o nosso medo de errar, de desapontar.  Aceitando, acima de tudo, que nem sempre agradaremos, que nem sempre é possível atender à expectativa do outro, até mesmo porque a expectativa é do outro e não nossa. E compreendendo que a vida e a felicidade não cabem em padrões sociais preestabelecidos.

Não existe fórmula para ser feliz, e muitas vezes o que provoca inveja socialmente é um grande fiasco no dia a dia. Quantas pessoas casadas ou que simplesmente namoram os famosos partidões não choram sozinhas na cama? E quantas outras pessoas que se uniram a parceiros socialmente comuns não saboreiam  uma deliciosa cumplicidade e companheirismo?

Nós nos fazemos por meio do olhar do outro. O olhar do outro nos afeta sim. Por outro lado, esses afetos não podem nos impedir de viver aquilo que queremos para nós. Esses afetos, por mais que nos machuquem, não podem nos impedir de viver a nossa subjetividade.  Passamos a nos amar quando acolhemos essa subjetividade, quando compreendemos que a vida e as relações vão muito além dos padrões e que ninguém precisa ser aceito o tempo todo.  Quando passamos a nos aceitar, atraímos pessoas que enxergam em nós aquilo que temos de melhor.  Se nos fazemos por meio do olhar do outro, o nosso olhar por nós mesmos também afeta o olhar das outras pessoas.

Então, no próximo relacionamento, pergunte-se: quero ser feliz ou desejo simplesmente estar com alguém?

Sílvia Marques é doutora em Comunicação e Semiótica, psicanalista lacaniana, escritora e atriz.

silviamarques@psicanalistasilviamarques.com