No início de um tratamento psicanalítico, é muito natural o paciente ficar apreensivo: “Será que poderei falar sobre tudo aqui?” “O que contarei ficará apenas entre nós?”.

A liberdade de dizer “tudo o que lhe vem à mente”, sem censura, sem programar nem organizar nada, é combinado desde o começo. Porém, mesmo assim, a pessoa pode tentar, para se defender, transformar o analista num entrevistador, orientador ou conselheiro.

Apenas  depois de algum tempo  – e isso é individual para cada um – é que o paciente começa realmente a confiar no analista e percebe que deseja saber sobre si,  desvendar seu inconsciente e interrogar-se a respeito de seus próprios enigmas. As defesas vão, gradativamente, desaparecendo, a espontaneidade surge e a censura diminui.

Nesse momento, o paciente principia a se libertar das palavras mais convencionais das queixas mais superficiais, dos relatos sem muito envolvimento pessoal, aprofundando-se em suas questões mais verdadeiras.

Começam a emergir os sentimentos reais, através de um processo em que há emoções ambivalentes. De um lado, contentamento e esperança por compreender coisas até então incompreensíveis. Do outro, o ato de “cutucar” dores profundas, feridas emocionais ainda entreabertas.

Não existe, em nenhuma situação, uma proposta de “camaradagem” ou “maternagem” por parte do psicanalista, para não contaminar a relação analítica. É fundamental que ele saiba usar sua sensibilidade, visto que, para exercer sua função, além da técnica, é necessário ter a “arte de escutar”.

Por esse motivo, é imprescindível que o próprio analista também tenha sido submetido a uma análise pessoal (coisa que geralmente os leigos desconhecem). O analista é como uma “tela em branco”, na qual podem ser projetadas as emoções mais profundas do analisando.

Para isso, é necessário que esse profissional tenha  contato com seu inconsciente, pois só conhecendo a si próprio poderá, na verdade, conhecer o outro.

Na realidade, o psicanalista não é um ser humano melhor que ninguém (assim como o médico, o professor, o dentista também não são). É apenas alguém que foi preparado para a “arte de escutar”, visto ter passado por uma formação antes de ocupar essa função.

Ouvindo, questionando, pontuando, aceitando sem julgar, o psicanalista é alguém que, embora não imponha caminhos, ajuda, de forma indireta, no reaprendizado do andar. Algumas pessoas se frustram quando percebem que as modificações que buscam não são tão rápidas quanto supunham – desistem no início ou no meio do caminho.

Outras, “pulam” para outro profissional – que seja “amigo”, “conselheiro” ou “bonzinho”–, não para encontrar o que lhes escapa, mas para escapar (inconscientemente) ao que poderia ser encontrado.

Porém, muitos são os que, corajosamente, encaram a luta e podem usufruir dos benefícios do tratamento, em meio às “alegrias” e “desconfortos” que ele  causa.

Edázima Aidar é psicanalista pela Sociedade Campinense de Psicanálise.
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